A Pergunta Que Vem Antes do Maciço
A gramática visual do design autoral brasileiro nasce de mais de uma lógica construtiva — e a decisão entre elas acontece antes de qualquer traço de desenho.
Pé grosso, encosto alto, espessura que parece exagero: essa gramática visual do design autoral brasileiro nasce de mais de uma lógica construtiva. Existe a peça maciço, sólida do início ao fim, e existe a peça oca, que aparenta a mesma robustez usando muito menos material. A escolha entre as duas acontece antes do desenho — e é sobre isso que essa matéria trata.
Uma gramática que parece exagero
O design autoral brasileiro tem um sotaque visual reconhecível. Pé mais grosso do que pareceria necessário. Encosto mais alto do que o catálogo europeu costuma desenhar. Espessuras que, à primeira vista, parecem decisão estética gratuita.
Nem sempre são.
Por trás dessa gramática existe uma pergunta técnica que precede qualquer traço de desenho: essa madeira específica pede para continuar inteira, ou rende mais sendo distribuída em outra forma de construção? A resposta muda peça a peça. E ela raramente aparece no produto acabado.
Duas lógicas por trás da mesma aparência
Existem, essencialmente, dois caminhos construtivos que chegam a essa mesma linguagem visual.
O primeiro é o maciço: a peça é volume sólido do início ao fim. Essa solidez não é luxo gratuito. O encaixe de espiga e mortise, técnica clássica que une pernas e travessas sem depender de parafuso, precisa de massa real de madeira para funcionar. Sem espessura suficiente, o encaixe racha. Some a isso o fato de que madeira maciça se movimenta com a umidade do ambiente, incha e contrai ao longo do ano, e ela passa a precisar de “corpo” para absorver essa variação sem comprometer a estrutura. Sergio Rodrigues e Zanine trabalharam boa parte de suas peças mais marcantes dentro dessa lógica: madeira bruta, patas grossas, volume real sustentando volume real.
O segundo caminho é o oco: a peça parece maciça, mas é construída por paredes, como uma caixa fechada por dentro. A força vem da geometria da construção, não da massa do material. É possível chegar numa perna “grossa” ou num encosto “impossível” usando uma fração do peso e do consumo de madeira que o maciço exigiria — porque o que sustenta a peça é o desenho da caixa, não o volume sólido.

A pergunta que vem antes do desenho
Na Samba, essa decisão acontece caso a caso, antes de qualquer desenho ganhar forma.
Certas madeiras de demolição chegam ao ateliê raras, densas, com uma história de uso que não se repete. Serrar essas peças em lâminas finas para “render mais” desperdiçaria justamente o que as torna especiais. Para essas madeiras, o maciço não é excesso: é a única forma de uso que respeita o material.
Outras vezes, o desenho de uma peça específica não exige volume sólido do início ao fim. Nesses casos, faz mais sentido em peso, em logística de transporte e instalação, e em aproveitamento de uma madeira nobre e escassa, distribuí-la entre uma construção oca. A mesma madeira que renderia uma única peça maciça pode render duas ou três peças ocas, sem perder a leitura visual de robustez que o design autoral busca.
Nenhuma das duas respostas é superior à outra. Cada uma responde a uma pergunta diferente sobre a madeira que está na bancada naquele momento.

A régua é o material
O pé grosso e o encosto alto continuam a mesma gramática visual nos dois casos. O que muda é uma análise que o público não vê: se aquela madeira pede para continuar inteira, ou se ela rende mais, e melhor, sendo distribuída entre peças diferentes.
Essa decisão não aparece na etiqueta. Aparece antes dela, na bancada, quando alguém segura a madeira e decide o que ela ainda pode ser.
FONTES E REFERÊNCIAS:
